A coerência paulistana

Nirlando Beirão*

São Paulo era contra Getúlio Vargas e a favor da oligarquia. Apoiou o populismo de Adhemar de Barros e inventou Jânio Quadros para a política. Vociferou contra Juscelino Kubitschek. 

Com as Marchas com Deus pela Família, preparou e apoiou o golpe militar de 1964. Revelou Paulo Maluf. Na eleição municipal de 1985, elegeu Jânio contra Fernando Henrique. Na primeira direta para presidente, elegeu clamorosamente Fernando Collor.

FHC contra Lula? FHC (duas vezes). Maluf contra Eduardo Suplicy? Maluf. Celso Pitta contra Luiza Erundina? Pitta. José Serra contra Lula? Serra. Gilberto Kassab contra Marta? Kassab. 

Vereador mais votado: o eminente Gabriel Chalita. Faz todo sentido. Quando Luiza Erundina venceu em 1988, não havia segundo turno. Em 2000, o eleitor correu para Marta Suplicy só porque tinha se cansado da impagável dupla Maluf-Pitta. Exceções que confirmam a regra.

*Nirlando Beirão é jornalista

Artigo publicado originalmente na coluna Estilo, edição n° 517 (15 de outubro) de Carta Capital.

Poesia periférica

"Eis-me aqui, poeta invisível e colecionador de pedras, pedindo licença pra jogar areia nos teus olhos (...) Contando a minha e outras histórias desse povo lindo e inteligente que vive na periferia”, apresenta-se o poeta Sérgio Vaz em seu recém-lançado livro Colecionador de Pedras – Antologia Poética (Global Editora). 

Vaz acaba de lançar a obra (antes vendida de forma independente), com textos consagrados durante os 20 anos de sua carreira, além de poemas inéditos, e
Cooperifa – Antropofagia Periférica (Editora Aeroplano), sobre sua trajetória e o sarau da Cooperativa de Poetas da Periferia (Cooperifa).

O poeta é um dos idealizadores e coordenador do Sarau da Cooperifa, um “quilombo cultural”, define, surgido em 2001 no bar Garajão, em Taboão da Serra, cidade onde Vaz vive há 15 anos e é tema de um dos poemas de
Colecionador... (leia 
aqui).

A escolha do bar como cenário se deu porque “é o único espaço público na periferia”, explica. “Não tem museu, não tem cinema, então transformamos o bar num espaço cultural.”

Cooperifa
No início, lembra o poeta, eram cerca de 17 poetas declamando poema de própria autoria ou de outros autores. “O pessoal no bar não entendia nada”. O projeto cresceu, atraiu no-
vos amantes da poesia e poetas. Segundo Vaz, já foram lançados cerca de 40 livros de autores da Cooperifa. 

“A gente trouxe uma novidade para a senzala. O pessoal pensava que poesia era coisa de louco, uma coisa melancólica”, diz. Hoje, o sarau é realizado todas as noites de quarta-feira no bar do Zé Batidão, na Chácara Santana, zona Sul de São Paulo, e reúne cerca de 300 pessoas: operários, costureiras, motoristas, motoboys, mecânicos...

A Cooperifa se tornou referência no movimento definido por Sérgio Vaz como “literatura periférica” e inspirou o surgimento de dezenas de saraus pelo país. 

Além do sarau e dos dois livros recém-lançados, o “colecionador de pedras” é autor de outras cinco obras (edições independentes) e está por trás de diversos projetos culturais. “Enquanto capitalizam a realidade eu socializo meus sonhos”, declara.

Paula Pequeno, a musa de ouro


Por pouco Paula Pequeno não seguiu carreira de modelo. A brasiliense começou a desfilar aos quatro anos de idade e era elogiada pela desenvoltura nas passarelas. Aos 12, sua altura chamou a atenção do técnico Jorge Gabiru, enquanto ela assistia a uma partida de vôlei em Brasília. Teve que escolher entre as passarelas e as quadras. Hoje a torcida brasileira comemora a decisão.

A recente conquista do ouro olímpico com a seleção brasileira em Pequim foi a maior glória da brilhante carreira da ponteira Paula Pequeno. Além de conquistar o ouro, ela foi escolhida a melhor jogadora, como ocorre em quase todas as competições que disputa.

Paula chegou ao Finasa/Osasco (ex-BCN) aos 15 anos. Na seqüência foi jogar em outras equipes e voltou em 1999. Uma das melhores jogadoras de vôlei do mundo, Paula é fundamental nas constantes conquistas da equipe, a última delas a Copa do Brasil, em setembro. “Sou vermelhinha de coração”, diz, em entrevista exclusiva ao jornal Visão Oeste.

Visão Oeste: Como se sentiu com a conquista do ouro em Pequim depois de ter ficado fora da Olimpíada de Atenas em devido a uma contusão?

Paula Pequeno: Na realidade foi um momento tão feliz na minha vida que nem penso no que foi ruim. Acho que foi uma etapa da minha vida, superei muito bem, e momento mais certo do que esse para ir a uma Olimpíada eu acho que não teve. 

E a sensação de, além de campeã olímpica, ter sido eleita a melhor jogadora?

Eu sempre sonhei com a medalha olímpica, então esse prêmio veio como um presente a mais.

Você se considera uma das líderes da nova geração do vôlei feminino?

Na realidade, cada uma tem uma maneira de liderar. Todas ali dentro [da seleção] têm um grau de responsabilidade, de cobrança. Não tem uma que vá se sobressair por algum fator de liderança, o grupo inteiro sabe dividir essa responsabilidade, essa liderança. 

É comum ver jogadoras das equipes infantis e juvenis imitando a sua tradicional faixa no cabelo. O que você gostaria de deixar de exemplo às próximas gerações?

Eu gostaria de deixar um exemplo de disciplina, de metas a cumprir, objetivos alcançados. Tudo isso na vida do atleta é primordial. Você sonhar, trabalhar e conseguir são as três etapas. Quero deixar muita coisa boa e tenho muito tempo ainda para fazer muita coisa boa.

E a sua relação com o Finasa/Osasco?

É sem palavras, sempre foi uma troca muito grande. Quando eu me machuquei, eles me deram total apoio, me recuperei até antes do previsto para dar retorno a eles. Quando engravidei, foram muito humanos comigo. Eu cheguei aqui com 15 anos, praticamente toda minha carreira está aqui, as fases boas, ruins. Sou eternamente grata por tudo, independentemente de eu estar aqui hoje ou de pensar em ficar mais ainda, e eu tenho certeza que eles também, porque sabem que eu sou vermelhinha de coração.

Recebe muitas propostas para trocar de clube? Houve sondagens depois da Olimpíada?

Acontecem especulações, mas a gente diz que não está em negociação e eu não quero nem ouvir, na minha opinião isso não é nem ético, talvez quando acabar a temporada, a gente tem empresário e um certo tempo para pensar nisso. É bom por um lado, dá segurança saber que tem oportunidades por aí, mas agora é Finasa na cabeça. Tenho contrato até maio.

Depois de derrotas na final nos dois últimos anos [para o Rexona-Ades/RJ], qual a expectativa do Finasa/Osasco para a próxima Superliga?

A expectativa é de vitória. O time está reforçado, está mais determinado do que nunca. A gente sabe, sonha e merece o título, está na nossa hora. 

O que acha de ser considerada uma musa do vôlei nacional?

Não me considero, não. O público fala muito isso, acho que é uma demonstração de carinho. Prefiro ser reconhecida pela minha carreira, por tudo de bom que eu fizer dentro do vôlei. 

Depois das conquistas do vôlei, acha que o Brasil deixou de ser apenas o país do futebol?

Não tem como acabar isso, o futebol é penta do mundo. A gente está caminhando, sem querer tomar nada do futebol porque tudo que eles têm é porque merecem e as pessoas têm que valorizar. Temos que aproveitar a nossa boa fase, os patrocinadores investirem no vôlei, para dar oportunidades.

O povo e o presidente

Jardim Rochdale, periferia de Osasco. Faz frio na noite de sábado, 27 de setembro de 2008. Mas o calor humano aquece a multidão de cerca de 20 mil pessoas. O barulho de um helicóptero chegando é o sinal: “Ele chegou!”. Gritos, bandeiras agitadas e até mesmo olhos marejados. “É uma emoção que não dá para explicar”, diz a funcionária pública Otaciano Araújo.

É ele mesmo. “Nunca antes na história desse país”, diria o próprio, um nordestino de origem humilde, ex-operário, ex-sindicalista, foi tão importante e querido. Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente Lula.

O fenômeno Lula não pode ser explicado apenas por números frios de pesquisas que indicam a aprovação do governo e da pessoa do presidente. No comício do dia 27, como em muitos outros, o discurso em linguagem popular é ouvido com atenção. Com a perna quebrada, Otaciana se equilibra com a ajuda de muletas para acompanhar. “Para ver o Lula vale tudo. Já fui até em Brasília, na posse dele. Ele é um mestre”, diz.

A dona de casa Carmem Peixoto, 58, define Lula como “um homem maravilhoso”. “Adoro ele, é simples e está com o povo pobre”, explica. “O Lula é igual a nós”, completa o porteiro Ronaldo Reis, 31, comemorando o fato de ter ficado “pertinho do Lula, a menos de 15 metros dele”.

Não faltam supostas histórias inesquecíveis junto ao presidente. “Nas greves em São Bernardo eu estava com o Lula, até já tomei cachaça com ele”, gaba-se o metalúrgico Luiz Pereira da Silva, 53. A diarista Ana Maria de Souza, 60, afirma que “trabalhava na mesma fábrica que o Lula quando ele perdeu o dedo, que prendeu na máquina”. Otaciana não esquece de ter comido coxinha com Lula no bar, há 20 anos, garante.

Fim do comício. A multidão diminui aos poucos, mas a rua continua cheia. “Quero dar tchau para ele”, diz Carmem. O helicóptero sobe, acompanhado de centenas de acenos. Lula se vai. Os cerca de 50 minutos perto do presidente metalúrgico ficarão para a história dos milhares de fãs presentes ao comício.

80% de aprovação

A atuação de Lula como presidente obteve 80% de aprovação, segundo a última pesquisa CNI/Ibope, divulgada no dia 29. O levantamento aponta ainda que o governo Lula é aprovado por 69% da população.

É a melhor avaliação desde a posse e a segunda melhor da série histórica, apenas três pontos percentuais abaixo dos 72% obtidos pelo governo Sarney em 1986. A pesquisa revela ainda que o governo Lula alcançou a maior nota média desde seu início: 7,4.

O levantamento foi realizado entre 19 e 22 de setembro e ouviu 2.002 pessoas em 141 cidades. A margem de erro é de 2%.

A última pesquisa CNT/Sensus, divulgada no dia 22, tem resultados semelhantes. Segundo o levantamento, a aprovação pessoal de Lula é de 77,7% e o governo federal é aprovado por 68,8% da população. A margem de erro é de 3%.

A pesquisa avalia que as principais razões para os bons índices obtidos por Lula e seu governo são “principalmente os bons números da economia e os resultados obtidos pelos programas sociais do governo”.